quarta-feira, 7 de julho de 2010

Pra não falar que eu não falei das flores.

Tenho achado esse blog meio deprê, tenho citado muito doença, a minha, a dos outros, comemorações de transplante, etc...rsss
Mas eu juro que apesar das citações, eu sou uma pessoa muito feliz, e embora a barra tenha sido realmente dura, eu sou grata por tudo que passei, e embora seja meio deprê, é impossível eu não citar coisas que fazem parte da minha vida e a de todos nós, coisas que ficaram impreguinadas em minha alma.
A flor da pele sabe? Mas a flor da pele de um jeito bom.
Hoje eu vou ter que falar sobre MORTE!
E para falar sobre isso e sobre o que anda rondando minha cabeça tenho que voltar aos meus quatro anos de idade.
Quando meu Avô paterno o Vô Zico, que era a única pessoa no mundo a me chamar de Deinha, ficou muito doente, teve um derrame e não conseguiu mais se comunicar conosco.
Eramos crianças eu e meus primos, mas nossos pais prevendo que meu avô partiria, nos levaram escondidos no hospital para nos despedir, lembro do desespero do meu avô tentando falar e escrever, ele se foi sem sabermos o que significavam aqueles balbucios e aqueles rasbiscos, que minha mãe tem guardado até hoje.
Para falar sobre o dia de hoje tenho também que falar sobre um casal muito charmoso, os meus Tios Avôs : Tia Tianinha e Tio Almiro, esses dois eram uma graça, sempre felizes, juntos, por 70 anos, criaram uma família grande, unida e linda, sete filhos como os meus avôs.
Por meu avô ter partido cedo, todas as vezes que via Tio Almiro, que é seu irmão, era como se eu visse meu avô, eles são muito parecidos e meio que transferi o amor pelo meu avô para o Tio Almiro.
Tio Almiro partiu faz uns três anos, eu, meu pai e minha mãe, nos despedimos deles antes, graças a Deus.
Fomos visitá-los assim que fiquei bem, e passamos uma tarde agradável entre família.
Tia Tianinha também sofreu um derrame há alguns anos atrás e suas cordas vocais sofreram danos, ela não conseguia mais se comunicar direito conosco, e percebiamos sua angústia por isso.
Quando a visitei e estava já surdinha, minha compaixão ficou maior.
Ela partiu ontem, acabou sua missão aqui.
Pra falar sobre hoje e o que ando pensando, tenho que falar um pouquinho também sobre meu Bisavô Antônio, ele era espirita nos anos 40 e imagine por quantos problemas ele passou.
Primeiro a própria família não o aceitava, meu avô, seu filho, nunca foi nas reuniões com ele, era tudo meio escondido, o submundo.
Quando me encontrei nessa doutrina, senti uma gratidão muito grande por saber que ele já acreditava em tudo que eu acredito apesar dos preconceitos por que deve ter passado.
Minha outra personagem a Tia Conceição,  irmã do meu avô e do Tio Almiro e filha do Bisavô Antônio, era medium, ela via e ouvia espiritos desde muito cedo e por não aceitarem e entenderem naquela época, apesar do entendimento de seu pai, fui considera meio louca e perdida.
Tem a história de um noivo desistente, que nós nunca soubemos os detalhes, que deve também ter contribuido para o rotulo que ela ganhou.
Meu Bisavô foi morar no asilo, por escolha própria, quando uma mordida de cobra que ele tinha na perna, que ele levou quando era jovem e que nunca curou piorou e suas dores tornaram-se insuportáveis tanto para ele quando para minha Avó, com quem ele morava que além da pobreza e de sete filhos para criar, não aceitava as escolhas do meu Bisavô.
Quando ele morreu ele pediu para o dono do asilo, espirita, que colocasse minha Tia Conceição no lugar dele.
Ela que era considerada louca e a pobreza de minha família fizeram com que ela aceitasse ir para o asilo rapidamente com vinte e poucos anos e lá viveu resignadamente até hoje, acreditamos que ela esteja próximo dos 90, já que ela não tem certidão de nascimento.
Eu não culpo minha família, creio que essa seja a missão da minha Tia Avó, mas não deixo de sentir como se um pedaço meu tivesse sido negado, como se uma parte da minha família fizesse falta.
Eu a visito sempre e embora ela não me reconheça, consegui arrancar sorrisos, e até eu te amo em resposta, mas nunca consegui convencê-la a passear comigo.
Todas as vezes ela me responde:
- Hoje não! Outro dia...
Ela nunca saiu do asilo, embora os velhinhos lá possam ir nos bailes, nos bingos, onde quiserem, ela nunca saiu de lá a não ser para ser internada recentemente.
Nossa família melhorou de vida e ela poderia senão morar, nos visitar quando quisesse, mas o tempo tratou de afastar, o estrago já tinha sido feito.
Sempre que chegavamos para visitá-la quando ela tinha saúde, ela estava com sua toquinha na cabeça, uma meia levantada e a outra abaixada, suas roupas descordenadamente combinando ajudando a todos, lavando roupa ou louça ou ajudando no almoço.
Sempre senti que nós, as visitas, mais atrapalhavam do que ajudavam, nós a tiravamos do mundo dela e faziamos com que ela percebesse que há um mundo lá fora, diferente daquele que ela deixou para trás quando entrou por aquela porta.
Eu sinto que ela cumpre sua missão brillhantemente resignadamente, em silêncio.
Ela não tem estado bem e eu estou morrendo de medo que ela parta sem que eu tente levá-la para passear mais uma vez, sem que eu diga eu te amo pela miléssima vez, e sem eu saia de lá com os olhos cheios de lágrimas sem que ela saiba quem eu sou.
Finalmente cheguei onde estou agora, neste dia, pensando muito sobre silêncios, despedidas, perdas, vida.
Hoje lá no cemitério eu fiquei imaginando quem irá se despedir do meu corpo nessa vida e apesar de saber que ele não terá mais vida, me deu um nó na garganta.
Caso eu não case, não tenha filhos, quem irá se despedir do meu corpo?
Eu sei que minha alma não estará mais aqui, se Deus permitir, mas é meio triste pensar nisso.
Os amigos embora nos amem, nem todos caminham ao nosso lado durante toda a nossa vida, alguns vão antes, outros se perdem de nós...
Pensei em convencer meus sobrinhos a prometerem, mas ninguém pode lhe fazer essa promessa.
Depois de muito pensar, cheguei a conclusão, que não importa quem se despedirá, mas sim o que eu plantar de amor e caridade nos corações das pessoas, assim os que tiverem partido estarão me esperando, e os que não forem se despedir mas se lembrarem de mim o farão com amor.
Alivio!
Esse problema foi resolvido..rss
O outro é perceber que a falta de comunicação pelo qual, meu Bisavô, meu Avô, minhas Tias Avós Tianinha e Conceição e eu passamos, de vários modos, por problemas nas cordas vocais, por derrame, por solidão, por traqueostomia, perda de massa muscular que impedia que eu escrevesse, além da surdez, nos faz viver aqui e lá, nos faz muitas vezes vivermos num mundo só nosso.
Mas essa percepção eu não posso mudar, talvez o estrago tenha ocorrido justamente para vivermos desse modo.
Bom eu sei que hoje o "céu" está em festa, estão todos matando a saudade, recebendo minha Tia Avó Tianinha, com a felicidade que lhe era peculiar nesta vida.
É momento de voltar para a casa depois da missão cumprida, é momento de saudade dos que ficaram e reencontro com os que partiram antes.
Hoje o céu está em festa e eu espero que quando minha Tia Conceição se libertar deste corpo, que ela me reconheça, e que Deus permita que sejamos amigas, por que eu a amo demais, e que possamos finalmente passear juntas, ver os céus azuis e as muitas flores.
E se não for pedir muito que possamos ir neste passeio todos juntos...
Por favor, Deus, permita que eu possa dizer mais uma vez nesta vida à minha Tia o quanto eu amo!
Seria egoísmo pedir que ela me espere, já que não sei o que tem programado para ela, e acho que ela voltar para a casa seja um lugar melhor do que ela está agora, mas que ela possa sentir meu amor, aqui ou aí mais uma vez.
Espero que possamos ser amparados pelos os que foram, na medida do possível e na medida de nosso merecimento.
Desculpe mas eu precisava falar das minhas flores!
Nesta foto: Bisavô Antônio/Tia Avó Conceição/Tia Tianinha/ Tio Almiro/Vô Zico






Vó Nita/Tia Conceição rindo com a Maria Clara no colo.
Em baixo uma foto dela que saiu no jornal, com suas panelas lavadas.
E sentada no sofá, num dia da minha visita, com todo o seu charme.

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