quinta-feira, 15 de março de 2012

E que venha a próxima aula da vida.

Ela chegou de mansinho, mas não parou de falar, e no meio de tantas histórias, intercaladas com meu peito enchendo o peito de ar e tentando fazer com que os milagres (lágrimas) não caíssem, muitas lições nas entrelinhas, em que ela nem percebeu a profusão com que tocou meu coração.
Contou-me que é viúva de um homem que lutou bravamente por dois anos até seus últimos dias com um câncer,  e que por ele estar no auxílio doença e não aposentado, ela não recebe nada por conta dele, mas sempre foi mulher lutadora, sempre trabalhou desde menina, quando veio do nordeste, da cidade pobre e suja, onde contraiu uma doença que lhe furou o fígado, mostrou a bolsa de metais para exemplificar o que não precisa ser detalhado, já que doí só de imaginar.
Fez o primeiro transplante, de doador vivo, desses que doam por amor, que doam por medo de não ter mais aquela pessoa contigo, sua irmã de sangue e dores, dezoito anos apenas.
Antes um ano de preparação, de reuniões e exames, de preparação psicológica para o que também não tem preparação.
Na reunião com os médicos, um dos vinte, toma coragem e vai contra os demais, não dará certo ele indaga, mas é minoria, e o sonho de ficar bem, de levar uma vida mais normal, faz da realidade o sonho, e do sonho a ilusão.
No dia marcado, tudo acontece, ou quase tudo, pedaços de fígado e de sonhos são despedaçados, a irmã perde os 40%, mas ela não ganha os 100%, nem o 1. Na UTI só a dúvida, só a confusão, só a mão que apalpa uma barriga sem cicatriz. A ilusão só vai caber dentro do peito, só vai ser digerida quando lhe trazem a maca com a irmã e a explicação de que o um era mais certo que os dezenove, e o transplante não foi possível ser realizado, a irmã perdeu um pedaço, mas ela não ganhou.
Decepção!
Sofrimento!
O médico que era contra, conversa, diz para que ela que perdoe e aceite, ninguém lhe quis fazer mal, pelo contrário, tentaram lhe devolver a vida, mas as ligações físicas do fígado não eram tão compatíveis quanto a ligações espirituais. Mas a vida só é dada, devolvida e tirada por Deus, e ele tem seus propósitos inexplicáveis, o ligar ou não ligar só cabe a ele.
A vida segue...um, dois, três meses, e o destino prega uma peça em uma família rica, poderosa, a menina dos seus olhos parte, mas antes deixa pedacinhos de si mesma espalhados por aí. A mãe não entende, por que, ela se foi, por que ela teve que ir para aquele hospital de humildes, por que ela queria doar, muitos por quês sem resposta. Todos os anos, já fazem dez, elas se correspondem, apenas por carta, a mãe ainda não está preparada para encontrar cara a cara com o pedacinho de amor que ficou da filha que jorra de fígados, rins, olhares, pulmões, pele e coração.
Talvez quando estiver preparada para encontrar os pedaços da filha a dor cesse por perceber que ela não foi embora, ainda está aqui, vivendo em cada uma das pessoas a quem ela tocou a vida.
Talvez sejam anos aceitando a partida e agora aceitar o estamos eternamente juntos seja mais dolorido.
Não compreendemos! É outro jeito, é o outro lado, é a mesma dor.
Os olhos enchem de milagres ao perguntar para mim, justo para mim, por que será que ela não quis ainda me conhecer(?)
Argumento que com certeza ela ainda não está preparada, mas torço para que esse dia chegue, mas talvez ele nunca aconteça. Me sinto triste, por ela não poder abraçar aquela que lhe devolveu a esperança como eu posso, embora me controle para não fazer tanto quanto eu gostaria.
Eu posso deixar o amor jorrar de dentro de mim, também posso fazer o mesmo com a minha prima que devolveu a minha mãe, e imagino se talvez em palavras, nas respostas da carta de todo ano, ela consiga agradecer (?). Acho que nem ela sabe.
A vida dela é assim, cheia de esperança, sem nenhuma segurança ou certeza (alguém de nós tem?), continua trabalhando como cuidadora, e numa desses cuidados, era para passar 1 dia e passou 8, abandonada, sem recursos para voltar para casa e sem saber como fazer, foram sete dias sem medicação, essa que mantêm a esperança dentro da gente, quando a buscaram (ela não gostava de dizer que é transplantada para não rejeitarem o trabalho que ela tanto necessita para viver) ela pediu que a deixassem direto no hospital, num sábado, ela sabe que não haverá médicos, mas só pensa em se salvar, em não perder o fígado abençoado, logo que entra, seu médico que tinha ido visitar um paciente a encontra, assim, por acaso (!?), na porta, num sábado, no imenso HC, é internada imediatamente, quase perde o transplante, não sabem o que fazer, ela ficou muitos dias sem tomar a medicação, seu organismo começa a rejeitar o fígado transplantado e doado pela moça bonita que morreu num acidente de carro..
Mas depois de muita luta, o fígado vence, a vida vence, trocam a medicação e a vida continua.
Hoje embora precise trabalhar, aos cinquenta e cinco anos, essa mulher guerreira que bebia água não potável, embora precise muito do trabalho, aprendeu a dizer não e sim para a vida.
Seu único filho, que lhe ajuda em casa, nas despesas e companhia, vai casar e se mudar, e ela novamente terá que reprogramar a vida.
Fechei os olhos quando me fui, pensando no imenso medo que tenho do futuro, e me senti ridícula primeiro por que eu sei, mas sempre deixo o medo me dominar, de que não sabemos o que acontecerá em um segundo, segundo por que ilusoriamente estou mais protegida do que muitas pessoas como essa mulher, terceiro, por que Deus nunca nos levará onde a graça dele não nos alcança.
Saio de lá mais leve, mais esperançosa no futuro, mais empenhada em realizar tudo que eu puder fazer para me proteger das intempéries da vida, que eu saiba amar para não me faltar companhia, que eu saiba poupar para não me faltar economias, que eu saiba construir para ter um teto sob a minha cabeça, que eu saiba sorrir para tornar a vida mais alegre, que eu saiba amar meu corpo como ele é, que eu saiba ouvir não só com os ouvidos machucados, mas com o coração sábio, que eu saiba ir, mas que principalmente eu saiba voltar, que eu tenha sempre a mala pronta para novas aventuras, que eu seja doce para que sejam doce comigo, que eu tenha paciência, humildade e amor sobrando dentro do peito, que eu aprenda a respirar, meditar, me curar, e que acima de tudo eu saiba me perdoar quando eu não conseguir fazer isso tudo, e que eu saiba acreditar e orar quando nada disso for suficiente.
Saio do HC emocionada vertendo milagres quando penso em tudo que ela me contou, e fico ali esperando meu pai vir nos buscar, já que minha mãe não anda bem, um dos muitos carros que deixam os doentes, pára na minha frente, um moço bonito salta da direção e vem abrir a porta para uma senhorinha meio paralisada, com uma bengalinha, ele espera que ela salte do carro e ela espera que ele a ajude...vejo a cena e não me contenho dou minha mãos como tantas vezes fizeram comigo quando eu não andava, e ajudo a senhorinha a saltar do carro, já na calçada esperando a senhora que estava no banco de trás que a acompanharia, apertando levemente minhas mãos, ela me diz algo, mas não entendo, ela repete e não escuto, até que finalmente eu ouço que ela quer me dar um beijo, e assim com um beijo estralado de agradecimento e o desejo eterno de que Deus me dê muita saúde eu fico ali pensando comigo, como as mulheres são fortes e como a maioria dos homens (não todos, graças a Deus) não são tão bonitos quanto aparentam ser.
No mercado outra senhora se aproxima, dispara a contar a vida, pra mim (acho que percebeu que minha mãe não está bem...rss) e eu escuto, um pouco, as vezes nada, mas faço cara que sim, me conta que é crente, que uma amiga a roubou e que o pastor mandou ela pedir perdão, ela retruca que falou para ele:
_ Primeiro ela é quem tem que pedir perdão pra DEUS, depois pra mim.
Falamos depois dela contar detalhes do roubo e da amiga traidora, da sua pouca vontade quando ela chegou hoje para se desculpar friamente, que um dia Deus irá tocar o coração da mulher e que ela irá ainda se arrepender.
E ela segue com suas sacolas e seu coração machucado.
(e penso comigo, até lá melhor mesmo a senhora não deixar ela entrar ou ficar sozinha em sua casa..rss).
E assim com a cabeça funcionando a milhão, o coração cheio de emoção e alma armazenando tantas lições contidas em algumas horas, eu vi ela de bolinhas, ele de boina e quadradinhos, cabelos brancos os dois, um guarda-chuva na mão que entrega o caminhar a pé, LINDOS, ambos vieram buscar medicação, ele puxa a cadeira para ela sentar, conversam com todos, sorriem para todos, numa delicadeza e amor, desses cúmplices de uma vida inteira, vivida enfrentando o medo, as dificuldades, as decepções, as doenças, são um a bengala do outro, tenho certeza que se conversasse com eles seria mais uma hora de aprendizados, mas Deus me olha com seus olhos sábios e bondosos e me diz...
Inveja a companhia
Inveja o amor
E ti prepara para a próxima aula.
Já minha sábia mãe ao final do dia me disse:
Nossa será que os bate papos estão me trocando por você!? Será?! Será que existe genética pra isso?

Não é não...é a vida te ensinando aquilo que você precisa aprender.

quem tem olhos que veja
quem tem ouvidos que ouça
quem tem dedos que escreva
quem tem blog que divida

2 comentários:

  1. E que bom que temos essas chances de aprendizados a cada novo dia, né?
    Obrigada amiga querida por aprender e dividir tudo isso conosco! Que possamos sempre praticar o amor! Aprender, ensinar, dividir, trocar...

    Genética ou não, filha de peixe peixinha é!

    Beijos queridona e que amanhã venham novos ensinamentos!

    ResponderExcluir
  2. Ufa graças a Deus que estamos abertas a esses aprendizados, eu estou ligadona...rsss...analiso tudo, presto atenção a tudo..rss
    De nada...Assim seja que pratiquemos o amor, a caridade, e que possamos dividir amor e atenção com aqueles que nos rodeiam...

    Pois é...com certeza...filha de peixe peixinha é..rss

    Até amanhã Bijú querida...Beijos

    ResponderExcluir