segunda-feira, 2 de julho de 2012

É preciso saber ouvir.

Lendo o post hoje da Lak, que amo, me emociono, identifico, e várias outras emoções.
http://desculpenaoouvi.laklobato.com/

Eu vibrei ao saber que ela, junto com amigos, fizeram uma cartilha explicando como se relacionar adequadamente com várias deficiências.

Sabe aquelas perguntas que a gente gostaria de fazer mas tem vergonha.

Eu por exemplo, queria saber qual a melhor forma de me comunicar com alguém numa cadeira de rodas, abaixo, sento, enfim...

E com cegos, dou o braço e ele se apóia, ou pego em sua mão?

E tantas outras dúvidas que me embananam a cabeça, sei que nem todos são iguais, mas suas deficiências sendo, algumas regras devem facilitar a nossa inteiração.

Por isso estou doida para ver o que essa cartilha da Lak contêm, não sei se ela irá divulgar, já que foi feita para seu trabalho, mas estou na torcida que sim.

Eu como deficiente auditiva, adquirida após uma infecção generalizada, passei a pensar muitas coisas:

Primeira delas: acho bárbaro meus sobrinhos desde pequenos lidarem com a minha dificuldade, o aparelho, já que de uma forma natural eles estão aprendendo a se comunicar comigo, apesar, que a falta de paciência para repetir, ou ir até o lugar onde me encontro e falar comigo olhando nos olhos, não é uma coisa só de adultos...rs, mas insisto para que não desistam de falar novamente, até que eu entenda, para que eu também posso compreender e participar da conversa.

Bia sempre perguntava se eu estava de aparelho..rs...

E hoje quando me gritam de outro cômodo da casa, sempre grito de volta que não estou escutando, que tem que vir até onde estou para falarem comigo..rs.

Claro que posso ir onde estão, e vou quando são meus pais, mas meus sobrinhos são mais novos que eu...rs

Confesso que eu também estou aprendendo a lidar com essa deficiência, já que não nasci assim.

Hoje evito lugares barulhentos e sofro quando algum amigo me convida para esses lugares, sei que vou perder muito, que não vou participar tanto quanto gostaria, por que, a maioria sabe, adoro falar, fazer piada, e rir.

Hoje sou mais quieta, mais introspectiva, pois, receio que o que entendi, não seja o correto, vivo dando foras.

Baladas pra mim hoje em dia, são para dançar e escutar a música, não contêm comigo para conversas e assuntos importantes.

No telefone, dependendo de onde eu esteja, a mensagem tem que ser a mais clara possível, quanto mais rodeios (palavras) e informações, maiores a chances de eu não compreender direito. Comigo é preferível irem direto ao assunto...rs

Falar olhando pra mim, é a garantia de que eu entenda melhor.

Desculpe, mas tem algumas pessoas, algumas vozes, por causa de seus timbres, que tenho mais dificuldade de ouvir.

Se for possível falem objetivamente, claramente, e articuladamente, além de se possível não alto, mas um pouco mais alto..rs.

Se estiver muito barulho, como carros passando, o caminhão do gás, um som mais alto, no metrô, esperem que esse barulho passe para continuar conversando comigo.

Às vezes, muitas vezes..rss, eu finjo que escutei...rs, e preciso me reeducar a não permitir isso, a infelizmente perguntar quantas vezes for necessário para repetir, pois, infelizmente, não escutar não é culpa de ninguém, a não ser das bactérias malvadas que atacaram minhas células...

Eu preciso me esforçar sempre para sair do meu mundo, do silêncio que me encontro e não desistir de trocar, de participar, de dar minha opinião, mesmo que eu tenha escutado alhos e a conversa seja de bugalhos..rs

Eu preciso superar a perda, o medo de ficar cada vez mais surda com a idade, o que irá acontecer com todos nós, mas como já tenho uma perda severa, no meu caso, o medo é maior.

Eu preciso cada vez mais perder a vergonha do aparelho, cada dia que passa eu perco mais e mais, mas em alguns lugares, com algumas pessoas eu ainda tenho um receiozinho, embora, eu fale para os quatro ventos que uso aparelho...engraçado e contraditório...rs

Eu repito pra mim em pensamento que aparelho nada mais são que óculos de orelha, mas por que a aceitação total aos óculos e a estranheza aos aparelhos (?).

Hoje já vemos muitas pessoas com aparelhos, porém, ainda é grande o uso deles por pessoas mais idosas, mas prestem atenção, com os jovens ouvindo músicas em seus ipod tão alto, em shows onde o som não é adequado, e tantas outras modernidades, no futuro da próxima geração acredito que os aparelhos ganhem a mesma naturalidade que os óculos, infelizmente.

Estou aprendendo a ouvir músicas, que tanto amo, e aceitar que hoje elas soam diferentes para mim, e que nunca mais eu as ouvirei como ouvia antes, esse prazer morreu, quando minhas células morreram.

Eu quero aprender Libras, para poder me comunicar com quem não ouve nada e também para me preparar para o futuro.

Eu queria que todos nós nos preparássemos melhor, via a cartilha da Lak, via a oportunidade de conviver com pessoas com as mais diversas deficiências, para termos uma melhor convivência, já que com tantos acidentes, com tantas mazelas, essas dificuldade pode acometer todos nós.

Pode ser chato, eu acho, mas infelizmente, ou felizmente, nós precisamos achar um novo meio da gente trocar emoções, como fazíamos antes, permeados de risos, confissões e alegrias.

Pra mim é um aprendizado de humildade e paciência maravilhoso e ao mesmo tempo penoso e doloroso.

Não escutar mais como antes, precisar usar um amplificador artificial em meus ouvidos, que me cansam a mente, incomodam minhas orelhas no final do dia, ter que gastar R$ 10.000,00 de quatro em quatro anos, mais pilhas, manutenções, não é um presente, mas um exercício árduo de resignação e ensinamentos.

E como tudo tem um lado ruim e um bom....

O bom é perceber que a precisão mora no detalhe.
Que a paciência é um dom.
E que a vida, seja ela como for, vale o investimento.

É preciso saber ouvir, e ir além, é preciso escutar com o coração.

Lak tomara que você possa divulgar a cartilha e dividir comigo e com tantos outros deficientes ou não.

Quanto a mim tem dias que agradeço a oportunidade desse aprendizado maravilhoso e em outros me entristeço até o limiar de minha alma.



Nenhum comentário:

Postar um comentário