sexta-feira, 20 de julho de 2012

Uma noite no PS

Minha mãe caiu e passamos a noite inteira, das 20h00 às 8h00 do dia seguinte no PS do Hospital das Clínicas, sim isso mesmo...
Sabe as famosas cinco fases quando você está passando por um momento difícil na vida..
Foi assim as minhas 12 horas no PS das Clínicas.

Negação
Primeiro eu me mantive distante, vendo aquelas pessoas todas em macas nos corredores, com as mais diferentes dores, me neguei a sentar perto do andarilho que aparentemente bêbado, sorria e abria os braços para mim e que passou pela segurança dura do PS e até as 4 da manhã ele não tinha sido atendido, por que, ele não tinha ficha, até que a segurança o percebeu e foi lá, eu já acostumada com seus sorrisos inofensivos e sua boa conduta, fechei meus olhos e pedi a Deus que os seguranças não o colocassem para fora, não aquela hora, não com aquele frio, neguei que isso pudesse acontecer, e até os seguranças se deram por vencido, se ele estava lá até aquela hora, que ficasse até amanhecer.
Também me neguei a sentar do lado dos três anões, sim zangado, arrastado e frustado estavam lá no PS.
Um trio cômico que eu quase gargalhei, os três iam de um lado para o outro bufando e arrastando os pés e passando as mãos pelo cabelo.
Quando atendiam o celular diziam coisas como:
É o exame só vai sair amanhã, vamos passar a noite aqui, nesse frio, sentados...é...(mas sem tom de reclamação, um tom meio alegre..rs).
Depois desligava e fechavam os olhos e roncavam...
Sem contar o bafo de pinga.

Vamos direto para o PS do Ortopedista, já que foi uma queda, mas eles dizem que o PS geral precisa liberar antes.
Sigo para lá, paro onde entram as ambulâncias, fazemos a fixa, e pedem que minha siga pela linha amarela para esperar ser chamada.
Deixo minha mãe lá e vou tirar o carro, quando volto ela sumiu naqueles corredores imensos, procuro, procuro, vou até a sala de espera 3 onde ela deveria estar, e nada, até o segurança vem me ajudar.
Ficamos eu, o segurança e meu pai, indo e voltando.
Achamos ela, eu, meu pai e ela esperamos, ela já foi rapidamente atendida, vai ser necessário fazer uma Tomo, já que ela bateu a cabeça.
Me nego a pensa que ela possa ter sofrido algo mais grave.
Como ela foi rapidamente atendida, penso que vai ser rápido, algumas horas talvez.

O Ps é cheio, pessoas internadas em macas no corredor, muita correria, médicos trabalham pra caramba.
Gente caí de tontura bate a cabeça e fica jogada no chão até que alguém venha.
Atropelados, falando bobagens por conta da anestesia.
Gente queimada.
Velhinhos.
Gente com enjôo, dor de cabeça e febre.
Gente mau humorada e cansada.
Ela segue para a medicação para a dor.
Duas medicas vem conversar com a gente, acho-as muito simpáticas e acho o atendimento bárbaro.



Raiva
O Elton tossia mais que tudo e eu morri de raiva de não poder sentar, em quanto ele não parasse de tossir e principalmente encarar a gente.
Fiquei com raiva do neuro por não chamá-lo logo para a consulta e me livrar do constrangimento de ter uma pessoa fedida, impaciente, com cara de louca, e ameaçadora na mesma sala que fomos obrigadas a esperar.
Minha mãe precisava ficar sentada, mas eu e a minha raiva não podíamos.
Ficou com raiva também a pseudo patricinha que chegou olhou aquelas pessoas largadas lá na sala de espera 3 e sentindo uma pontada de nojo com raiva foi obrigada a sentar, após meia hora começou a sentir mal, ânsia (todos se olham), tontura, e começa a chorar, a enfermeira é chamada e mais trinta minutos depois (sim esse é o SUS) ela vem socorre-la, a acompanhante explica que ela colocou silicone faz 4 dias e está passando mal sem comer (todos se olham agora desaprovando sua vaidade).
Mas quem ficou com raiva mesmo foi a enfermeira que veio e gritou: Elton dos Santos Nascimento.
Ele se levantou como se fosse um dos carros do "transformers" e retrucou:
Sou eu (veio quase em cima da gente).
Vamos tirar sangue?
Vão tirar mais o que de mim? Estou o dia inteiro aqui! Depois eu vou ter que falar com o Papa!
A enfermeira, que ficou com raiva, e não estava lá para desaforos, deu meia volta e disse que depois outra pessoa viria tirar o sangue dele.

Esperamos na sala de espera 2 para fazer a Tomo, mais algumas horas, muita gente, muita tosse, abrimos a janela como transplantadas que somos para o ar circular.
Minha mãe é chamada para a Tomo, e voltamos para a sala 3 para esperar o laudo, muitas pessoas que fizeram a Tomo são liberadas imediatamente, ficamos com medo, por que, da minha mãe não é liberada.
Começo a procurar as médicas e elas me dizem que tem que esperar o laudo.
Mais horas se passam.
Liberamos meu pai que precisa trabalhar amanhã.
Procuro as fofas novamente.
Elas conversam com o médico chefe e percebo que elas são residentes, por isso a fofura..rs, elas contam o caso da minha mãe para ele e ele explica que o laudo não vai sair hoje, só no dia seguinte, mas que é necessário que o neuro veja a Tomo e consulte a minha mãe para poderem dar alta.
Ele pergunta se elas fizeram RX do Torax e da pelvis já que foi uma queda e é esse o procedimento.
Eu bufo de raiva, mas mantenho a linha.
Percebo que as fofas não tem muita experiência e minha mãe ficou perdida na lerdeza do atendimento, na quantidade de casos graves que são passados na frente.
Ela volta para a sala 2 para esperar para fazer os RX.
Ela geme de dor, é frio, ajudo ela.
O técnico diz pra mim: Tadinha...machucou feio.
Começo a achar que isso não terá fim, pois com esse machucou feio, mas a demora do neuro, mais a alta do PS Geral e a ida ao PS do Orto eu não vejo luz no fim desse túnel.


Barganha
A mãe e a filha de capuz do moletom (carequinha desconfio que tenha câncer), chegam, não faz nem uma hora que esperam, mas já estão cansadas e indignadas com a demora.
Nós que estamos lá a muitas horas levantamos a nossa sobrancelha num julgamento rápido.
A filha sente dor no estomago e a mãe corre de um lado para o outro tentando achar alguém que a socorra, quase colide com uma enfermeira, barganha para que a moça faça algo, ela que não pode fazer nada sem que o médico a consulte.
Elas falam mal, xingam, e se acalmam e sentam, o médico chama, vão fazer exames e ver se pode ser a vesícula.
Ela conversa comigo e eu quase não a escuto de sono, de tédio, de cansaço de problema de audição..rs, ela se acalma e bem diz a enfermeira, sabe que ela não pode fazer nada, que tem que esperar, tudo ao contrário dos dois segundos de antes.
Eu entendo!
Quem não chora não mama e quem não barganha não ganha.
Logo ela está na sala de medicação, mas digo a ela que essa é uma das fases e que provavelmente ela só sairá dali quando o dia tiver se posto.

Começo a barganhar com as fofas que chamem o neuro, elas me explicam que não é por conta da demora que é grave.
Que na verdade os graves passam na frente, e que devo ficar feliz, pois, se não fomos atendidas até agora é por que não é grave.
Alivio!
Finalmente minha mãe é chamada na consultório, imagino que seja para falar sobre o resultado da Tomo, mas não
O Neuro vai consultar minha mãe, faz todas as mesmas perguntas que as fofas fizeram, examina minha mãe e diz que vai ver a Tomo.
E some minha gente, vejo ele andando de um lado para outro, atendendo outras pessoas (que devem ser graves), um homem caí no banheiro e seus familiares que o socorrem, junta uma leva de médicos dentre eles o neuro que deveria estar vendo a Tomo da minha mãe.
Eu o sigo onde vai.
Fico olhando para ver se ele me nota.
Ele finge não me ver.
Quando ele passa pela minha mãe, ela fala:
Dr. não esqueça de mim.
Ele esboça dizer algo, resmunga algo que não entendemos e segue adiante.
Aprendi a duras penas que em hospitais brigar, xingar, fazer encandolo é pior, te largam lá.
Então barganho de leve.
Penso que se meu irmão estivesse lá ele já estaria procurando a ouvidoria..rs...mas não adianta.



Depressão
Ela um dois policiais armados com metralhadoras e junto com eles um menino, de seus quatorze anos, ele é passado na frente de todos, é atendido, medicado e arrastado pelos corredores, algemado, de cabeça baixa, muitos maldizem que trazem esses marginais para o hospital.
E com meu coração partido e meus olhos cheios de lágrimas padeço, sei que temos ódio daqueles que nos roubam, traem, machucam.
Sei, eu sei!
Porém não consigo não me padecer, e antes que digam que é por que nunca fui assaltada, desminto, fui, com arma na cabeça, já roubaram meu carro, já roubaram meu relógio (embora eu tenha brigado com o moleque.rs), e mesmo assim, eu padeço e sofro.
O marginal tem que tomar a medicação virado para a parede, em pé, sem olhar as pessoas, sua face quando está indo embora é desafiadora, olho em seus olhos e só vejo raiva.
Deve ser raiva por ser tratado assim, como lhe tratam, da mesma forma que ele deve tratado suas vitimas, mas ele não tem condições, nem consciência disso.
Fico deprimida com aquela cena. O que será que poderíamos fazer para que a maldades nos corações dos homens fossem curadas.

A Dra. fofa diz que o RX não deu fratura e que provavelmente ela terá alta, assim que o neuro a ver.
Cansadas sentamos na sala 3 novamente aguardando o neuro trazer o resultado, diante da minha indignação com as fofas, elas resolvem dar uma nova medicação para mamys, já que a essa altura a primeira já tinha passado o efeito.
É lá diante da prostração que o neuro surge, conversa comigo e diz que viu a Tomo, e que da parte dele ela está liberada e que a médica vai dar alta para ela, pergunto quem, ele diz que a que atendeu ele primeiro.
Ele também diz para minha mãe que ela está de alta.


Aceitação
O dia está nascendo, e estamos todos lá. O PS não escolhe seus personagens, não os força a ficar lá, é o processo, as fases, a paciência e aceitação daquilo que não podemos mudar.
A velhinha que caiu em sua cozinha, conversa com todos, está lá como todos nós há horas, está preocupada com minha mãe e espera que sejamos atendidas logo.
Ela me conta sua idade Oito, Oito ela me diz, me conta como se segurou na mesa, mas a bendita escorregou, me conta que não escuta e que na correria ela não pegou seu aparelho, conversa com a Amanda a moça da dor de estômago e acha lindo o nome da moça que lhe dá atenção.
O médico pergunta a Amanda como é a dor, para ela descrever, se queima, aperta, dá pontada?
Ela diz que tudo isso que ele falou menso queima, diz que é horrível.
Ele sorri!!! com a descrição dela e a incerteza de que ele tenha tido a resposta para a sua dúvida.
O Elton dorme, não se importa que a nova enfermeira que irá tirar tudo dele..rs venha daqui um dia, ele não se mexe, talvez ele tenha que falar com o Papa, isso se o plantão não mudar.
A moça do silicone tomou a medicação e teve alta, se despede de todos os abandonados de sorte, como velho amigos, a dor traz a humildade.
O moço que foi atropelado está com uma faixa na cabeça e também recebe alta, saí com seu amigo falando que não foi dessa vez.
Os das macas dormem, ou fogem das enfermeiras para falar no celular e são pegos no flagra e levados de volta a sua maca.
A moça que o marido não lembra de nada, a grávida que não tem como voltar para o Campo Limpo, as duas moças que conversam animadas em quanto uma delas toma soro, a moça que perderam o exames dela e terá que refazer tudo, conversam animados na sala de espera 2, conformados que aquela noite Deus escolheu que eles se conhecessem, que se estranhassem, se aceitassem e aprendessem.




Quando eu e mamys estamos na porta cruzamos com a velhinha de oitenta e oito anos ainda firme na sua noite sem dormir, eu estou um caco, mas ela parece estar numa festa, saí com sua faixa na cabeça costurada e nos bem diz com seu mais singelo sorriso.
Encontramos a Dra. Fofa que diz para minha mãe onde ela está indo?
(comoooooo)
Ela diz que o está indo embora.
Ela pergunta quem deu alta?
Minha mãe diz que o neuro.
A Dra. fofa diz: mas que ela ainda não deu alta.
Entregue a esse filme dramático de comédia cômica, nos arrastamos até a recepção novamente onde o médico chefe é chamado novamente.
Ele faz testes com o braço da minha mãe e como ela não consegue levantá-lo ele diz que o que ela acha de ir para o PS do Orto?
Ela responde sabiamente que ele é quem tem que dizer se ela deve ir...rs.
E assim devemos seguir para o PS do Trauma e Ortopedista.
Mas não sem antes esperar um auxiliar de enfermagem que nos levará até lá.
Mais algumas horas sentadas na sala de espera 2, já que disse para a Dra. fofa que iamos sentar para esperar por que já imaginava que duraria mais algumas horas até que alguém pudesse fazer isso.
Lá ficamos.
Até que entrou o pessoal da limpeza e nos mandou para sala 1 rss...
Eles lavam tudo, mesmo com as macas no caminho.
Morrendo de fome, de sono, com dor de cabeça, resolvo ir comprar algo para comermos.
O frio congelante me toma de imediato, mas sigo em frente.
Compro um café com leite para minha mãe, comidinhas e quando vou entrar o guarda me diz que não posso..rs
Deixo o café com leite na murreta, e taco as comidinhas na bolsa, e digo para ele:
PRONTO
Entro, e mamys come escondida.
Ela, cansada vai falar com os médicos, eles dizem que a enfermeira a chamou em todas as salas e que não a encontrou.
Minha mãe responde que não saiu de lá.
A enfermeira vem e chama a Thais, que deve seguir para o Orto.
Dizemos que nós também vamos para o Orto, mas que o nome da minha mãe é Juvendira, nome bem difícil de confundir..rs
Uns cinco minutinhos a enfermeira volta, a Thais na verdade era a Juvendira, tinha trocado a etiqueta.
Finalmente seguimos para o PS do Trauma.
Lá tem um coitado numa maca, que caiu de moto, ele fica olhando com cara de sofrimento a todo instante, minha mãe pergunta se ele já foi atendido, ele diz que não, mas que está olhando para ver se acha o enfermeiro por que está morrendo de vontade de fazer xixi.
Eu me proponho a chamar o enfermeiro para ele, ele vem e o ajuda, nós saímos da sala.
O médico vem, e é de uma finura que dá gosto, mexe na perna do moço sem cerimonia, vira para lá, torce para cá, o moço chora de dor.
Minha mãe já se apavora, e diz que se ele fizer isso com ela, ela vai dar uma nele.
Eu já estou no meu limite, mas aceito tudo, penso que essa é a fase final, que está acabando e logo estarei em minha cama quentinha.
O médico vem, examina minha mãe, é mais delicado do que com o moço, mas precisa fazer certos movimentos que doem em minha mãe.
Diz que o RX do PS Geral não ficou bom e que vai pedir outros.
Sentamos na espera do RX e o técnico anda de um lado para outro, pega a ficha da minha mãe, a única que espera.
E vai, pasmem para outras salas chamar a Juvendira..rs
Eu vou atrás dele e digo que é aquela senhorinha esperando lá na porta do raio X...rs
Ela entra, tira o raio X, o médico analisa e vem a bomba:
ELES VÃO VER SE ELA TERÁ QUE OPERAR.
ADEUS ACEITAÇÃO
ADEUS CAMINHA QUENTINHA.
OI INTERNAÇÃO E A RENOVAÇÃO DE TODAS AS FASES.
Ele volta e diz que é para ele seguir em conservação, com a tipoia por quatro a seis semanas e que depois eles vão analisar se irão operar.
Seguimos para casa.
Até que ao passar na fármacia para compra a medicação para dor, descobrimos que o médico não carimbou.
Durmo algumas horas e volto no PS para colher o carimbo do médico e assim comprar a medicação para minha mãe.
Lógico que ele não está!
E assim todas as fases terminam!!! Será?

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