sábado, 20 de outubro de 2012

O caminho

Quando a gente tem uma deficiência é muito fácil a gente percorrer o caminho da desculpa.
E não permitir que isso se torne o empecilho para viver sua vida plenamente e sim o impulso que leva mais longe é muitas vezes um caminho tortuoso.
Reclamar da vida, das dificuldade, numa ladainha que poucos escutam, palavras ditas ao vento, para ouvidos apressados, que muitas vezes vira uma disputa de quem tem mais problemas e decepções, até que um diz tchau e você se vê cansado energeticamente sem ter feito esforço algum só jogado perolas aos porcos.
Eu tento me policiar para que o transplante, os cuidados que preciso ter, a perda auditiva, dos dedinhos, não me façam me acomodar demasiadamente.
Hoje tenho outras prioridades, outros desejos, outros sonhos, e tudo bem tê-los, mas até que ponto a deficiência é usada como desculpa por mim.
Um dos meus sonhos sempre foi falar melhor inglês, me virar melhor nas muitas viagens, nos muitos países que sonho conhecer.
Conversar, me socializar e o inglês é o que abre essas portas.
Sempre ficava repetindo pra mim que agora é mais difícil, por não escutar tão bem, etc e tal.
Até que comecei a ler o blog da Lak, "Desculpe eu não ouvi", e lá fui tomando conhecimento de um mundo amplificado, artificial, vindo do aparelho que eu desconhecia e que até hoje tento me acostumar.
Lá acompanhando as aventuras da Lak e de outros deficientes auditivos e suas famílias, seus amores e já chorei de soluçar, já me identifiquei, já agradeci pela minha perda não ser tão severa quanto a da Lak e de tantas outras pessoas, já fiquei puta com o descaso, já senti na pele o preconceito meu e dos outros, já revi minhas posturas, minhas ideias, já aprendi demais, já usei o que aprendi para ensinar os outros, mas o mais bacana de todas é que eu percebi que eu não posso usar desculpas, não aprender inglês (a Lak aprendeu depois da deficiência) é uma escolha minha, uma preguiça e falta de empenho que deficiência nenhuma é culpada.
Quando digo que ficará para outra vida..rs, é por que, sou preguiçosa...rs
Hoje li o post da Lak e me emocionei demais, quando vi lágrimas caiam pelos olhos sem controle e nem fim.
A vida é uma grande jornada para todos nós, alguns carregam mais tralhas do que outros o que faz a jornada ser um pouquinho mais complicada.
Alguns além da carga que carregam recolhem pedras ou flores.
Outros ainda escolhem caminhos mais longos
Já outros param para descansar, se abrigam em sombras, se saciam com a água pura da fonte.
Alguns caminham em grupo, e em alguma parte precisam aparar as arestas, repensar a estrategia para darem uma agilizada e decidirem se continuam juntos ou precisam se separar e cada um seguir por uma estrada.
Outros caminham só, mas sempre, eu disse sempre, encontram companhia onde os trechos precisam de ajuda para serem ultrapassados.
Alguns correm e não aproveitam as flores, a água, a sombra, nem agradecem a ajuda e quase nunca escutam e muito menos observam as muitas conversas silenciosas e os muitos conselhos que existem em cada bifurcação.
Alguns percebem tanto que conversam com o destino como grandes amigos, saúdam e agradecem as companhias, a intuição de não seguir em frente, o pressentimento do perigo, a palavra ou consolo vindo na hora, no lugar e de alguém que menos se esperava
Já outros ficam tão embasbacados com a beleza do percusso que demoram mais para chegar ao destino.
Eu não sei em que parte do caminho eu me encontro, não sei se falta muito, se já percorri uma distância boa,  se me desfiz das muitas tralhas que carregava comigo, se observei tanto o que deveria, nem sei se agradeci as muitas ajudas que recebi, sei que embora eu seja surda em meu corpo material hoje eu ouço mais, hoje eu converso mais comigo e com o destino, talvez eu não agradeça tanto como deveria, mas sou grata de coração pelas oportunidades que os caminhos que escolhi me deram.
Hoje sei que tudo que aconteceu comigo foi a maior tristeza e a mais bela alegria que poderia ter me ocorrido.
O caminho que escolhi percorrer foi uma escolha minha e pago por ele com as glorias e as muitas lágrimas que derramo.
Tudo que me aconteceu foi a benção e a chibata.
Já corri, já parei completamente, já fui para caminhos errados, me arrependi de escolhas, e hoje eu sei que mesmo só eu nunca estive abandonada.
E hoje eu sei lendo o post da Lak (http://desculpenaoouvi.laklobato.com/index.php/2012/10/20/tres-anos-de-implante-coclear/), mais uma vez, que nenhuma das dificuldades que tenho podem ser usadas como desculpa para qualquer um dos sonhos que tenho.
Só cabe a mim seguir em frente da melhor forma que for possível.
E se eu continuar falando The book is on the table..rss..a culpa é minha.
E eu sempre soube que independente das escolhas e do tempo que demore, todos nós vamos nos encontrar lá na frente, num mesmo destino final.
Se eu chegar primeiro eu te espero e se você chegar primeiro fique de olhos abertos, pois, a qualquer momento eu apareço na curva do caminho.





Um comentário:

  1. Oi, Dea!
    Vim convidar pro SORTEIO que tá rolando no Andrea Guim Blog.
    Bora lá participar!!!
    Beijins,
    Andrea Guim

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