sábado, 20 de abril de 2013

A vida plena é curta ou é longa?

Ela partiu...
Levou embora seu olhar perdido, seus momentos de lucidez marcante, sua curiosidade, seu amor puro, quase infantil, seus esconderijos de biscoitos, suas toucas de lã que prendiam e deixavam soltos seu cabelo vasto e grosso como o meu, foi embora também seus olhos claros, e sua aparência igualzinha a dos seus, sua unhas pintadas de vermelho, seus vestidos com calça comprida.
Ficou na minha memória suas panelas areadas, o cheiro do cigarro que não fumava mais, o seu perfume cheirando a talco em formato de creme, e a dor do seu abandono.
Ficou também no meu coração os momentos partilhados, a minha obrigação de estar presente de uma forma  lúdica, sem a certeza do entendimento.
Sem saber se ela sabia quem era, o que eu era, quem eu sou.
Minha tia avó Conceição, a do asilo partiu sexta passada, e com ela levou uma vida de resignação.
Suas amiguinhas sentadas em volta de seu corpo, velando, a amiga que nunca contou nada sobre a sua vida, que não dividia histórias, dores, desaborres, que apenas vivia dia após dia sua rotina.
De histórias só o seu amor por queijos, e presente que ela mandou a moça do asilo comprar para ela dar para a Maria, que vive lá no asilo.
A família feita de sobrinhas, e sobrinhas netas presentes, cada uma do seu modo, cada uma com sua dor.
Lembro a última vez que a visitei no começo do ano, já fraca pelo câncer, sem andar direito mais, mas ainda sim inquieta querendo tomar sol, andar, sair.
Eu sempre pergunto a mesma pergunta:
- Tia vamos passear comigo?
E a última resposta a minha insistência, olhando fundo nos meus olhos, num momento de entendimento profundo:
- Agora não dá mais!!!! (com aqueles olhos claros cheios de lágrimas, a voz embargada e fraca, numa constatação dolorosa de que ela sempre esteve presa, ao seu corpo, ao asilo, mas que sua alma, sempre esteve cada dia mais livre e próxima do que realmente chamamos de paraíso).
Para muitos ela não teve uma vida, foi julgada meio louca, desequilibrada, não se casou, teve filhos, talvez tenha morrido virgem, não conheceu o amor, não teve riquezas, não viajou, não teve festas, presentes, não teve nada.
Mas daí eu penso, que ela viveu seu destino, cumpriu sua promessa, viveu mais de noventa anos a vida que lhe foi apresentada, sem nunca reclamar.
Talvez ela tenha tido uma vida mais plena do que muitos de nós, por que, do ponto de vista espiritual ela viveu mais próxima da verdade, teve paciência, viveu uma rotina dura de solidão, de abandono, de não ter para onde ir, passou necessidades físicas, doenças, e nunca saiu do asilo. Do ponto de vista material ela pouco possuiu, mas não tenho dúvida que do ponto de vista espiritual ela muito evoluiu.
A mim ela ensinou a resignação, a paciência, a aceitação de alma aberta dos caminhos escolhidos por nós.
A não reclamar e ao mesmo tempo não se acomodar, ser útil da forma que puder.
Tomar sol.
As curadoras do asilo, uma a uma vieram também se despedir, e no discurso final de uma dela o agradecimento a minha Tia por toda a ajuda que ela tinha dado.
Ao invés de ficar sentada minha tia arregaçou as mangas e ajudava no asilo como podia, lavando, passando, coziando. Fez da sua vida o que podia.

Em minhas orações falei pra ela:

- Tia vai em paz, volte pra casa, sua missão está cumprida, muito bem cumprida, vai com eles tia, pra um lugar bem melhor, onde há a liberdade, onde você vai ser você de novo, onde com certeza te esperam de braços abertos e felizes por ter feito dessa jornada, por mais difícil que tenha sido materialmente, a sua parte.
Sentirei saudades, mas tenho certeza um dia você irá passear comigo, agora não dá mais, como me disse nessa vida, mas temos muitas outras tias pela frente e tenho certeza que haverá tempo para compartilhamos alegrias, vou sempre lembrar quando eu dizia te amo e você dizia eu também te amo com a profundeza da sua alma. Perdão Tia se falhamos.

Suas panelas areadas

Eu adorava enfeitá-la
Sua curiosidade


Nossa última foto




6 comentários:

  1. Meus sinceros sentimentos, Déa!!
    Nossa... tô aqui com os olhos cheios de lágrimas.
    E o que importa é realmente o que fica... este carinho que vc tem não é em vão, né!
    Fiquem com Deus, viu!
    Bjns
    :)

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    1. Oi Cici,
      Não é mesmo querida...acho que é de outras vidas...
      Não é por acaso que ela era minha Tiazinha Querida Avó...
      Vou te falar esse sofreu...ou não né? Mas dá dó ela ter morado tanto tempo do asilo.
      Obrigada viu...
      Beijos.

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  2. Oii Andréa, fiquei muito emocionada aqui lendo seu relato, lembrei da minha avó com quem tive grandes dificuldades de relacionamento devido a rigidez com que ela nos tratava, no fim de sua vida, já bem doente ela se transformou na avó que eu sempre quis ter, carinhosa, compreensiva e tudo mais, no entanto não adiantava mais, já era tarde, lembro que pedi a Deus que não a levasse agora que ela tinha ficado "boa" sofri muito pelo tempo que não teríamos mais p resgatar a relação, e assim ela se foi! Aff que lembrança difícil me veio agora! Lamento pela sua perda, que Deus a tenha a seu lado! Bjooooss

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    1. Oi Kellen,
      Me emocionou também com a sua história...quem umas em nossas vidas que doeem né? Mas devem ter um motivo...não importa se o tempo foi curto, foi bom sua vozinha ter sido, mesmo por um tempo a avó dos seus sonhos, pense que esse foi o tempo suficiente para ela se redimir, se tornar melhor, que bom que isso aconteceu, eu acredito assim....
      Gosto muito de uma frase:
      " E direis uma só palavra e serei salva..." (é da missa, essas frases que repetimos, eu sempre me questiono...qual palavra é essa....e gosto de pensar que seja perdão....)Deus é assim, não importa quanto tempo a gente andou mal, o que importa é nosso arrependimento...nossa melhora de coração.......Só de você contar o quanto ela melhorou já foi resgatado querida...um pena ela não ter sido assim a vida toda, mas isso é um outro passo....não sei se acredita em outras vidas, mas quem sabe agora ela volte bem melhor....esperemos. e no seio da sua família de novo....com você...Desculpe ter feito se lembrar dessa história triste(?) (de superação)...Obrigada querida...assim seja...e tenho certeza é...Beijos.

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  3. Oi Andréa, é a Vi,triste observamos aqueles que amamos indo embora, mas sentimos um certo conforto quando a pessoa já esta com uma idade avançada ou esta sofrendo com alguma doença.
    Tenho uma amiga de 90 anos, e as vezes ela fica falando dos parentes próximos que já foram, das dores que ela sente, e tenho impressão que ela anseia por ir também..
    Muitos beijos,Vi

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    1. Oi Vi,
      Sei que ainda sou nova, mas por ter passado por tantas coisas dolorosas (de velhinha diz aí? Rsss), eu meio que sei como ela se sente, aliás minha alma sabe...rss..infelizmente, acho que vai dando uma tristezinha sim e se formos fazer as contas putz quando se chega aos noventa é contagem regressiva...mesmo meus pais, penso quantos anos eles tem pela frente e sei que não são mais como antes...afff...essa é a única verdade da vida e a que mais a gente não tá preparado...bitocas flor.

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