sábado, 13 de julho de 2013

Quero sentir a altura do abismo...pra eu poder subir depois do perigo.

Faz tempo que estou pensando em fazer esse post, mas como tudo na minha vida eu espero ser o mais sincera possível e pra isso preciso expôr sentimentos meus que apesar de teoricamente eu ter em mente exatamente como deveria me sentir e agir, minhas atitudes andam lentamente contrarias em relação a minha mente, e meu coração faz a ponte entre entender e sentir.
Quase todo mundo sabe que fiquei doente, tive sequelas que ainda luto para superar.
Estou melhor nesse oito anos que se passaram, mas ainda muito longe do que eu sonho em chegar.
E talvez eu nunca chegue nesse patamar maravilhoso de ser quem eu era, sem ser quem eu era.
Falta pedaços importantes em mim, fisicamente e espiritualmente e embora eu goste muito de quem sou hoje, me corta o coração saber por tudo que precisei passar para vislumbrar a vida tão calmamente como agora.
Ainda não sigo totalmente meu coração, por que, apesar do que eu penso, o que eu sinto me confunde.
É a certeza de que o que importa é minha alma, meu coração, mas a vaidade, os quilos a mais por conta da medicação, o papinho da cortisona diária, as cicatrizes, a perda da audição, a falta dos dedos do pé, ainda me tomam de supetão.
Sim eu quero não me importar, sim eu quero pensar que tudo isso pouco importa, que o amor incondicional não vê nada disso, mas aqui nesse mundo e ainda dentro de mim esses sentimentos ainda vivem.
E embora eu tenha tido experiências espirituais fortíssimas em que eu realmente soube que nada disso tem importância, quanto mais o tempo passa, mais essas sensações vão se tornando lembranças e eu me vejo reconstruindo muros, buscando aparências, roupas, sapatos, cremes, e procedimentos que me livrassem dessa feiura, não me levem a mal, somos espíritos em um corpo físico que precisa ser cuidado e amado o que estou falando aqui é da vaidade, de permitir que esses "defeitos" nos impeçam de fazer as coisas.
De me sentir menor por isso, quando eu devia me sentir uma gigante, não melhor que ninguém, mas extremamente forte, por ter passado por tudo que passei.
Lembro quando me sinto pequenina do Dr. David Uip (infectologista) com os olhos arregalados me olhando e dizendo:
Primeiramente quero te dizer que você deve ser uma mulher muito forte, tanto fisicamente como psicologicamente...!!!
Confesso que quando vejo um corpo malhado eu o acho bonito e sim eu também confesso que ver o corpo envelhecido me dá um conflito entre a beleza da alma e o "feio" das rugas, das banhas caídas.
Todo mundo leu sobre a atriz sessentona que foi de biquíni na praia, e de como ainda somos machistas, e vaidosos, uma parte minha ficou horrorizada com os comentários e a outra entende bem, não quem xingou, mas quem escolhe, como eu, não se expôr. Quem abre mão da praia por conta da vaidade.
E admiro quem não está nem aí e se esbalda com suas bainhas saltitantes.
Fujo da praia.
Fujo da piscina.
Fujo desse corpo que ficou marcado.
Orgulho da minha luta.
Orgulho de quem me tornei.
Orgulho do modo que encontrei para aceitar e superar, avançando e recuando.
Sinto que tenha precisado sofrer tanto para perceber o que vale a pena.
Sinto que saber que o que vale a pena não controle meus instintos e sentimentos
Sinto que ainda não sou evoluída o suficiente para não me importar com isso.
Há como podem ver um conflito dentro de mim.
Metade de mim é alma, metade é vaidade.
Não falo aqui das encanações que todos temos, eu tinha peito pequeno, mas isso não me impedia de viver, eu não usava alcinha, tomara que caia, mas isso não me impedia de ir a praia, isso nunca me tirou a autenticidade, a espontaneidade que eu tinha.
Eu estava lá jogada nas fotografias, sendo eu mesma, inteira, desprovida de preocupações reais e profundas sobre meu corpo e a vida.
Por isso, não adianta falar que cada um de nós tem um problema, uns carecas envergonhados, um tem banha, outros não usam blusa de manga cumprida, isso eu entendo, mas saiba que você não entende o que sinto sobre o meu corpo e sobre tudo que ele passou a menos que você tenha passado por isso como eu passei.
Eu vi meu corpo envelhecer muitos anos, eu passei aos trinta, por coisas que a maioria passa aos oitenta, sim tem muita gente que passa por isso (crianças inclusive), e nunca mais, eu acho, elas voltam a ser a mesmas, a ilusão acaba, e o conflito se estala.
E é nessa minha luta, que eu sei não terá fim, que eu luto contra meus próprios preconceitos.
Luto para prender o cabelo e não me importar que vejam meu aparelho, luto e rio dos enganos que cometo por ouvir as coisas erradas, choro quando o aparelho me incomoda, quando parece que tem uma obra inteira dentro da minha cabeça, fico orgulhosa de estar aprendendo e ensinando as pessoas a conviverem com as diferenças, fico orgulhosa dos meios que temos encontrado de nos comunicar, fico brava de ir ao cinema ou no teatro e perder coisas importantes que ficam sem compreensão pra mim, agradeço a Deus dele ter me deixado com um pouquinho de audição assim não fico em silêncio absoluto e posso escutar o mundo que tanto amo, fico brava por nunca mais escutar as músicas como eu as escutava, fico triste de não escutar e poder conversar como antes com um monte de gente ao mesmo tempo, de ir na balada, no bar e interagir como eu fazia antes, uma parte de mim diminuiu também, hoje sou mais calada, com menos opinião, hoje elas moram mais dentro de mim, administro as perdas e ganhos dessa experiência.
Se a praia agora é um sofrimento, me conformo. Viajei muito, curti muito, tenho uma reserva de bons momentos em meu peito. Se isso me faz sofrer, dou tempo ao tempo.
E luto para parecer o mais comum possível, e acho que consigo, pois, a maioria que convive comigo nem lembra mais do que passei, alguns nem sabem que uso aparelho, que os pés sofreram tanto.
Eu passo despercebida, comum, normal, cheia de vida.
Não é raro alguém me diz que acha que vou viver muito (embora eu não queira), por que, dizem que eu aparento amar a vida.
E eu amo, e sim, eu sou muito mais feliz do que antes, mas apesar de eu ser feliz, existem sim muitos sofrimentos dentro de mim, que essa experiência que me fez tão mais feliz, causou estragos que sem essa felicidade toda eu não teria forças para administrar.
Meu calvário é minha alegria e vice versa.
Luto para tornar meu pé judiado, sem dedinhos (alguns mais outros menos), e voltar a pisar segura, sem que ele me trave ou envergonhe, eu quero ir com ele por aí, por todos os lugares, segura de mim, como eu era antes, e essa tem sido uma luta eu comigo mesma, e eu luto, como eu luto, eu nunca me permiti afrouxar com isso, algumas vezes eu entendi que aquela situação ia me fazer sofrer muito naquele momento e por isso me poupei, respeitei meu luto, minha necessidade de recolhimento, minha vaidade ainda excessiva, mas muitas vezes eu e cada vez mais eu tenho pisado cada vez mais forte.
Por mais acanhada que eu esteja (e sou eu não os outros e eu sei disso) eu ando de chinelo por aí, percebo alguns amigos que mudam comigo depois disso e entendo eles, inconsciente eles tem a ilusão da Déa que eu aparento ser, perfeita, linda, e ver meu pezinho quebra essa imagem perfeita, mas não me incomodo com isso.
Eu sou agora a moça dos pezinhos sem dedinhos, que usa aparelho, que tem várias cicatrizes, tem uma bainha de cortisona, estrias.
Um dia eu não vou ligar, nem um pouquinho, um dia, como eu já disse eu vou ser completa de novo, embora eu saiba que isso não tem a menor importância, mas eu sei que esse é um aprendizado meu.
Tenho estado cada dia melhor, ainda tem dias em que fico imaginando por que eu tive que trilhar um caminho tão difícil (pra mim), e percebo que sim eu gostaria de não ter que ter todas essas marcas no meu corpo para ter transformado a minha alma, eu queria voltar a ser a magrela de barriga lisa, a moça com as pernas lindas, o rosto fino, o ouvido perfeito, que me permitia a resposta certeira, a moça que conversava com todos no maior barulho, que se fazia presente e tinha opinião sobre tudo, sim eu sonho e infelizmente eu sofro por não poder mais pintar as unhas do pé de vermelho, de não conseguir mais usar os saltos, de todos os sapatos apertarem e machucarem meus dedos sem proteção, agradeço por tudo que passei, mas seria bom demais não ter precisado passar por tudo isso, e ter meu corpinho perfeito, e ser milagrosamente quem eu sou, perceber todas as coisas que eu agora, só agora, depois de tudo eu passei percebo
Eu queria ser como todo mundo, eu queria não ter que ter quebrado TUDO, levantar de novo sem essa ilusão dá um trabalho gigantesco.
E é nesse processo lento e tortuoso, em que muitas pessoas ao meu redor talvez nem percebam, que quando alguém se preocupa se a comida ficou salgada pra mim e me pergunta se eu posso comer, pra eu não carregar algo pesado, pra não fumarem ao meu lado, e lembra que eu não bebo mais e que quando me permito tomar um golinhos de caipirinha que tanto amo ou vinho me olha feliz.
E quando essa pessoa pega minhas mãos, e me diz que notou que eu passei o final de semana de havaianas em sua casa, e que ela sabe que isso não foi nada fácil pra mim, diante de pessoas não tão próximas para mim, e que ela está muito feliz que eu tenha conseguido e que está mais feliz ainda por eu ter conseguido isso em sua casa, por que, ela sabe que eu fiquei assim lá, por que me sinto acolhida, amada, em casa, e que ela percebeu e que ela precisava me dizer, dividir que ela notou.
E choramos, cada uma pelo seu motivo, em comum.

Eu e minha amiga que me enxerga, meus defeitos, minha vaidade, minha luta e compreende que eu, ela, e todo mundo sabemos que tudo isso é uma grande bobagem, que amamos independente de pés, barrigas, papos, pochetes, camisas de manga curta, carros velhos, bigodes, gosto musicais, peitos, bundas, colotes, cabelos curtos, carecas, sapatilhas, bermuda ou sunga, ter ou não todos os dedos, todos os membros, todos as certezas, arrogâncias, superioridade, sinceridade, risada escandalosa, dúvidas, ser palhaço, fechado, chato, cabelo roxo.
Por que na verdade ás vezes é isso o que mais amamos ou odiamos nas pessoas, a forma como ela lida com graça, sinceridade e força diante daquilo que nesse mundo material julgamos preconceituosamente como defeito ou qualidade na nossa lista a ser completada.
Nossa lista de requisitos!
Na verdade o que importa é quem eu sou, minhas lutas, essa mulher guerreira, que ama a vida, essa mulher forte que fez até o Dr. David se assombrar em ver pela frente.
E a você que é minha amiga e me percebe, meu muito obrigada!

Não, não me acalme com silabas doces
Hoje eu quero o açoite das palavras rudes
Pra que eu possa me defender em atitudes
Não, por favor hoje não me proteja
Para que eu finalmente veja
O que a vida reservou p/ mim







14 comentários:

  1. Déa me emocionei. Conheço algumas dessas lutas diárias. Esse texto mostra para mim não só o físico, mas também a alma e posso dizer que são lindos. Bjs

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    1. Obrigada Sandra....a alma tá bem melhorzinha que o corpicho, embora eu não possa reclamar, afinal depois de tudo que ele passou até que tá bem melhor o que poderia estar...rsss
      Mil beijocas

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  2. Continuo esperando seus pés aqui na praia de casa... te amo.... Clau

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    1. Também te amo Cláu, infinitamente...
      E eu e meus pés sempre estaremos por perto....
      Beijos.

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  3. Ai menina, você emociona a gente ........
    Penso muitas vezes assim como você, me odiando e me amando, também por coisas que passei e ainda passo.
    Não adianta .... é assim mesmo um dia sim e outro não, nosso pensamento e atitudes se confundem. Mas não dizem que o importante é viver? Então vamos lá, aproveitar o tempo que nos resta.
    E aprecio você mais ainda por ter colocado tudo para fora, não é fácil, mas acho que é bem melhor assim. E quem gosta de você, gosta de qualquer jeito.
    Um lindo domingo para você.
    Beijos querida.

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    1. Ohhh Jô linda....
      A vida é assim né? Dualidade total....
      Vamos sim aproveitar o que nos resta...senão o tempo passa e não crescemos, é preciso riso e choro para se ter uma vida plena...
      É bom ser sincera consigo mesmo.
      Mil beijocas.

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  4. Déa querida,

    Eu li e me emocionei. E aprendi. Obrigada por me ensinar.

    Beijos,

    Eneida

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    1. Ohhhh LInda Eneida.
      De nada....ensinando e aprendendo...sempre.
      Um beijo carinhoso.

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  5. Déa... cada dia passo a te amar mais ainda, sabia?
    Fiquei super emocionada com o seu desabafo, não é fácil expor nossos sentimentos, nossos medos ou desejos. Mas essa dualidade entre a razão x coração será eterna, viu! Sinal de vida, de que sempre vamos querer melhorar, e aprender.
    E vc, amiga... mesmo nos dando esta lição, ainda aprenderá muito tb... se Deus quiser!
    Bjs
    :)

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    1. Verdade Cici...
      Se fossemos evoluídos não estaríamos aqui...rsss
      Simbora aprender, e se Deus permitir, melhorar um pouco mais a cada dia..
      Bom ter pessoas como você e tantas outras que dizem coisas que me fazem pensar, melhorar, assimilar..
      Beijocas sua linda.

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  6. Déinha te amo amiga!!!!

    Eu sei da sua luta,dos desafios, dos desapegos... mas, me alegro em ver em quem voce se tornou!! Voce é muito especial para nós!!

    beijo grande com saudades!
    dani

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    1. Obrigada Daninha....
      É uma longa caminhada...muitos caminham comigo...
      Presenciaram bem o meu dramaaa...rss
      O medo da "praia"...dos pés descalços, mas um dia eu chego lá.
      Beijocas também amo vocês.
      Saudades flor.

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  7. Déa, saiba que não está sozinha nessa caminhada. Quando eu vi minha cicatriz, aos 23 anos, me assustei, mas eu pensei: Estou viva. Meu médico disse para fazer uma plástica, mas eu perguntei se era uma cirurgia de novo e ele disse que sim. Eu disse que não queria passar por aquilo de novo e me conformei. Com o tempo a vaidade começou a voltar e foram 10 anos para ir à praia novamente. Fui pra longe, ninguém me conhecia e enfrentei. Ao mesmo tempo que foi um alívio, eu tinha vergonha, percebia que me olhavam, mas daí eu parei de olhar. Fiquei assim e não tem volta. Agora ficou um pouco pior, minha perna está toda marcada, amassei ainda mais meus glúteos, que já não existiam na verdade, de tanto ficar sem me movimentar e perdi o movimento do pé. Eu penso agora: Estou viva e minha perna está aqui. Por mais que eu nunca tenha sido muito vaidosa, não é fácil ver nosso físico, arranhado, mutilado, mas sabemos que faz parte do nosso aprendizado, da nossa evolução. Apesar do pouco tempo que nos conhecemos, quero que um você fique à vontade na minha casa e fique de chinelos e quem sabe algum dia não consigamos ir à praia fechando os olhos para os outros olhos? Adoro você, guerreira!

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    1. Rsss...outra cirurgia não né querida?
      Se bem que às vezes eu queria...só às vezes...daí minha médica me proibe e sigo em frente...balanceando a vaidade e a coragem..rs
      Flor às vezes a gente pensa tanto em nós que esquecemos de pessoas próximas com histórias ou medos bem parecidos...desculpe.
      É sim...temos vaidade né? Não dá para eliminar totalmente, afinal, estamos num mundo material.....
      Combinado minha querida...um dia...quem sabe..eu e você na praia..rs
      Te amo guerreira.

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