sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Os dois lados da mesma moeda.

Hoje o Hospital do Rim faz 15 anos de vida, é lá que me trato desde que saí do coma e tive alta, e tenho muitas boas recordações de lá.
É um hospital pequeno, focado no rim, em transplante que atende com a mesma qualidade, atenção e carinho, o pessoal do SUS e o particular.
A única diferença é ter o quarto todinho para você, se tiver plano, o resto, são os mesmos médicos, mesmo cirurgiões, mesmo tudo.
Adoro!
Dr. Medina, que chamo de Papa, é meu médico, junto com Dra. Lúcia, e ele é também um dos diretores e foi o homenageado hoje lá na Assembléia Legislativa. Nunca tinha estado lá.
Ele foi o escolhido para representar esses 15 anos do hospital, estavam lá sua família, amigos, políticos, funcionários e nós que fomos salvos por ele.
Adorei poder estar lá batendo palmas para esse grande homem.
Um homem que nos deixa envergonhados de início, que é tímido, mas que tem dentro de si uma força imensa, que transforma a vida de todos que tem a sorte de cruzar seu caminho.
Já falei dele várias vezes aqui no blog, no meu livrinho, na minha vida, e quase toda matéria de transplante cita seu nome na TV, no jornal, no rádio.
Ele é um dos responsáveis por sermos o país que mais realiza transplante de rim, 1000 por ano só lá no Hospital do Rim.
Vem médicos de todo Brasil e de todo o mundo aprender as técnicas desenvolvidas no hospital.
Pra mim ele é o Papa, que surge quando estou na UTI, no quarto, na sala de recuperação, fazendo exames, no consultório (ele sempre me dá uma bizoiada...rs).
Ele é o papa pra mim e eu sou pra ele um de seus milagres, e assim ficamos quites.
Ao Hospital do Rim, a todos os funcionários, principalmente os enfermeiros, o pessoal que tira meu sangue todo mês e agora de quatro em quatro meses, ao Dr. Medina, Dra. Lúcia (que estava lá e me deu uma beijoca), Dra. Alexandra, Dr. Mário, que sejam comemorados outros 15 anos de sucesso como foram esses que passaram.

Medina no Hospital do Rim: mais de 12.000 transplantes (Foto: Fernando Moraes)

Foto retirada daqui: http://vejasp.abril.com.br/materia/de-torneiro-a-doutor

Hoje, infelizmente faleceu uma moça que o marido apaixonadíssimo vinha por meio do face comunicando seus amigos e parentes sobre o quadro difícil de saúde que ela vinha passando.
Não sei por que, ou talvez eu saiba, eu caí de paraquedas nessa história.
História tão diferente que a minha e tão igual.
Sofri com ele a cada dia, a cada novo comunicado sobre sua esposa, chorei, imaginei por toda angústia que a família deles estava passando e lembrei da minha.
Concordei com as decisões que ele tomou de protegê-la, quando comentou que ele tinha sua fé e que o importante era todos rezarem por ela independente de sua escolha religiosa, sofri quando ele contou que muitos pediam novas notícias, mas que elas eram assim pequenas de um dia para outro.
Soube nesses comunicados a dificuldade de atender todos os pedidos, de responder tantas dúvidas, de ter que ler ou ouvir tantas coisas de tantas pessoas diferentes.
Vi esse marido falando em que nunca mais a vida deles seria igual, que valorizariam cada dia, cada coisa boba, como sentar.
Vi ele falar também que não era uma disputa de milagres, já que começaram a lhe contar várias histórias, não é mesmo, cada um tem sua história, mas é difícil para nós que estivemos do outro lado (sendo pacientes quase terminais) não nos identificarmos, embora a doença fosse outra, o sentimento me parece tão igual, é essa linha tênue entre a vida e a morte que nos une.
Enfim...estar lá exposto deve ter sido maravilhoso pela possibilidade de trocar energia positiva com milhões de pessoas, como deve também ter sido uma situação delicada lidar com tamanha diversidade de pensamentos, ideologias, sentimentos e talvez até loucuras por que não..rs. (imagino as coisas lindas e as coisas que para ele eram absurdas que ele leu, afinal, é uma gama muito grande de pessoas ali no face)
Mas o que mais me comovia nessa história era pensar nas dificuldades que a moça enfrentava e em tudo que ela tinha ainda pela frente.
A vida dela ia ser totalmente transformada, revirada, e isso demoraria anos para ser digerida, mas para seus familiares isso não importava, eles só queria que ela sobrevivesse, foi assim comigo.
É assim com a maioria, o que importa é a vida, depois a gente conserta o que tiver que consertar.
Eu rezei por ela, todos os dias que lia o post, no meu grupo de oração, sempre que me lembrava.
Tudo leva a crer que ela faleceu de choque séptico, que foi o que tive desde o começo.
Eu rezei por ela, sofri com ela, me identifiquei com ela, embora seus percalços tenham sido outros.
De certa forma acho que Deus escolhe nossa hora de voltar pra casa como foi com a moça, e de ficar aqui, ainda não estando pronta para ir pra próxima fase, como foi o meu caso.
A querida agora vai continuar sua nova vida, sua nova fase.
E eu...bem eu continuo aqui...sendo o milagre do Dr. Medina, do Dr. David, da minha família.
Contrariando estimativas, sendo 1% do lado que sobrevive, mas que nem por isso é fácil.
Querida não te conheci, só soube sobre seu sofrimento, que tantas recordações me trouxeram, mas quero que vá com Deus, fique em paz, e que sua família, amigos, seu marido, possam apesar da saudade massacrante seguirem a vida, usando seu exemplo de força e luta pela vida.

E assim hoje eu vivenciei esses dois lados.

De um os transplantados felizes da vida, por continuarem sua vida, por terem uma nova chance de se tornarem melhor, de melhorar a convivência, de amar mais, AQUI nesse mundo.

Do outro a partida de uma guerreira que terminou sua jornada, e que se prepara (na minha ideia de vida e morte) para uma nova fase na sua vida eterna. Deixando aqui seu testemunho e exemplo de luta pela vida, unindo diversas correntes de fé por um propósito maior: AMOR AO PRÓXIMO.

O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.

Fernando Pessoa.

Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte

Freud


E eis que nesse misto de sentimentos confusos, eu ganhei um outro presente tão...tão delicado e fofo, que fiquei emocionada e que eu farei um post a respeito.




6 comentários:

  1. Déa querida,

    Obrigada por dividir comigo seus sentimentos, suas vitórias, suas emoções. Sinto que, a cada postagem sua, aprendo e me torno uma pessoa um pouquinho melhor.

    Beijos,

    Eneida

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  2. Eneida querida,
    De nada...sempre a disposição...falar isso para alguém como eu que ama escrever é dar uma tremenda corda..rsss
    E Fala que aprende um pouquinho me deixa feliz....que todos nós sejamos capazes de aprender um com o outro a parte boa né? Rss
    Beijocas.

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  3. Nossa, Déa... 2 sentimentos opostos mesmo, intensos!
    Muito bom saber que ainda existam médicos que praticam a sua profissão por amor, por vocação e por respeito aos seus pacientes. Infelizmente, tem sido cada vez mais raro, mas...
    Já sinto muita gratidão pelo seu papa, senão não a teria conhecido!
    Te adoro, amiga!! Fique bem.
    Bjns
    :)

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    1. Cici,
      Ele é um fofo, faz muita caridade, leva os médicos para cidades do interior e atende de graça...
      Depois traz quem precisa para SP....um homem maravilhoso mesmo.
      Ele está no hospital 24 horas por dia (dá essa impressão, pois, toda hora a gente cruza com ele nos mais variados horários...rs).
      Verdade...sem ele eu não estaria aqui, pelo menos não tão firme e forte...rss
      Beijocas flor.

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  4. Olá menina,
    eu li a história desse esposo ontem no face, e hoje chegou aqui com essa noticia, confesso que me emocionei, e antes de vir aqui escrever, precisei orar e pedi a Deus conforto para o coração do esposo e demais familiares.
    Ai...
    Mudando de assunto, existem médicos que são anjos que Deus colocam na nossa vida,conheci e conheço alguns que são e foram os anjos na vida do meu pai, na do meu filho e, porque não dizer na vida de toda a família....que bom que você também tem seu anjo médico, e hoje pôde está lá com ele, nesse momento tão especial.
    Olha, agradeço a participação lá no meu sorteio.
    Tenha um ótimo final de semana, beijos

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    1. Oi Jack,
      Pois é, essa história mexeu com várias pessoas....o face tem esse poder...e que bom que rezou por eles...acho que estão precisando nesse momento de força...
      Ele é um dos Jack, graças a Deus cruzei com muitos anjos pelo caminho, acho que ele é o preferido, por que, ele é maravilhoso...se tiver oportunidade pesquisa sobre ele...e vai ver.

      Beijos meninas...tomare que eu ganhe, ando com sorte..rs

      Beijocas.

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