sábado, 29 de abril de 2017

Como programar uma viagem - Uma transplantada no mundo - Com a ajuda do destino.

E as pesquisas continuavam e as pendencias burocráticas e trabalhosas foram sendo sanadas.

Seguro saúde com a empresa Vital Card que foi a empresa que ganhou o título de melhor empresa no atendimento do mercado, e o que a gente quer, não a melhor do mundo, mas a melhor quando a gente precisa. Por ser um grupo, quanto mais pessoas juntas fazem, mais barato fica.
Ah o desconto para grupo só funciona se todos escolherem a mesma categoria.
O legal do plano é saber se tem repatriação médica..eu e minhas maluquices de quem entrou em coma de uma hora para outra (como sempre é nesses casos...rs).
Totalmente perdidos ainda sobre o que ver, onde ir, compramos as passagens internas e com isso se definiu a quantidade de dias em cada cidade, horário dos vôos, e quanto tempo teria em cada lugar que visitaríamos. 
O roteiro foi se criando meio que sozinho, numa catarse conjunta com o grupo...
Um detalhe: Em viagens internacionais temos direito geralmente a mais peso (no caso dessa viagem, duas malas de 23 quilos, mais uma mala de mão de 5 quilos, mais uma bolsa feminina), mas em vôos locais essa quantidade de peso caí drasticamente, no caso da nosso viagem, faremos 4 vôos internos e estes tivemos que comprar para despachar a mala, tinha um pacote com 20 quilos para despachar, um lanche, e o direito de reservar o assento, todos compramos esse pacote, e eu e mais duas meninas compramos mais 10 quilos para que ficasse pelo menos um pouco mais perto pelo menos de uma das malas que saem daqui do Brasil (23 quilos). Então alguns de nós tem direito a 20 quilos e outros 30, além dos 7 quilos de bolsa de mão e uma bolsa feminina.
Tudo que é comprado nesses vôos custam, e você pode comprar diversas regalias...rs, como ir sentada no colo do piloto...mentira, não tinha no site...rs
Ah no final ao pagar em cartão internacional ainda tem a taxa do cartão e IOF.

Tivemos o auxilio de uma amiga de uma das pessoas que irá na viagem, que é uma agente de viagem para essas coisas e ela ainda ficou de orçar os hotéis, transfers, passeios e nos mandar.

Quanto mais pesquisas, algumas angústias iam surgindo, por tratar-se de um país budista, você tem que tirar o sapato na maioria dos lugares, isso é ainda uma coisa desconfortável para mim que perdi as pontas dos dedos dos pés, sei que é infinitamente ridículo quando se pensa em alguém que se perdeu um pé, uma perna, uma mão, mas eu ainda sofro com essa perda, estou melhorando a cada dia, luto muito e sinto muito orgulho de mim, por que, parece fácil falar, mas acredite só quem passa sabe o que se sente.




Os meus dedos não vão nascer nunca mais, não nessa vida, se você acredita em outra, nunca mais eu vou pintar os dedos do pé, nunca mais eu vou me sentir inteira, nunca mais eu vou ter equilíbrio, os dedos para me equilibrar, nunca mais eu vou ser normal e não chamar a atenção, os olhares de estranhamento ou compaixão. Nunca mais meus dedos vão voltar.

Como já disse diversas vezes, eu me sinto desconfortável, é como se tirar os sapatos e mostrar meus dedos mutilados, eu ficasse nua diante das pessoas, é estranho e difícil de explicar, mas eu perdi minha autenticidade, a normalidade, tirar os sapatos e verem meus dedinhos feinhos é ser anormal, diferente, é chamar atenção para uma coisa que eu não quero chamar a atenção.

Nem para as coisas boas como ser inteligente, bonita, esperta, a gente gosta de chamar a atenção, a maioria geralmente, imagina chamar a atenção para algo não tão bonito, diferente, doloroso e desconfortável.

Mas como a gente não veio nessa vida para brincar, na primeira reunião com o grupo, foi onde? No tatame da escola de Yoga, onde eu já precisei, sem nem conhecer o grupo direito, sem saberem da minha história, tirar os sapatos.

A cada recado do universos (por que Deus está muito ocupado com coisas mais sérias que meus desvaneios) eu olho para ele e digo: Tá certo, eu vou aceitar, um dia...hoje..amanhã...talvez.

Então eu vou ter que lá tirar os sapatos diantes de muitas pessoas, mas muitas mesmo, que eu sei nem vão se importar comigo e com meus dedos.

Mas vejo isso como um teste, um exercício forçado por meio do meu amor de viajar, de testar a minha capacidade de aceitar.

É isso Andrea, seus dedos não vão nascer mais, você nunca mais vai pintar as unhas de vermelho, mas veja meu bem, você ainda vai pisar em terras exóticas, na grama, não vai dançar como antes, por falta do equilibrio, mas lembre-se, você prometeu que nada te impediria de fazer o que ama.

E se esse é o preço a se pagar, então, já tá pago.

Lá faz nessa época do ano 45 graus, tem moções e tempestades que começam geralmente nos meses que estaremos lá....

Em nosso roteiro também entrou um país onde uma grande parte da população foi mutilada e novamente voltamos a toda a questão pé feinho de cima....rs, mas acho que lá, nesse caso, vai ser um "tabefe" na minha cara.

Tipo, está reclamando do quê?

Da sua vidinha previlegiada, do teto sobre a sua cabeça, da médica amiga que te auxilia, dos amigos que te chamam para viajar, da família que te apoia apesar do tanto que você é chata, dos amigos rycos e finos que te proporcionam milhões de coisas, do seu computador em casa, do país sem guerras só roubalheira...(mas veja bem, é um país tão maravilhoso que tem de sobra para ser roubado)...rs...enfim...

Olha aqui, são crianças, idosos, que foram mutilados por uma guerra, que foram massacrados e torturados e que ainda hoje, vários anos depois, ainda sofrem com as minas deixadas em seus quintais.

Ok.ok.ok Universo...eu aceito! Rs

Aí conforme o roteiro que foi criado estamos assim, primeiro eu vou exercitar....tira o sapato, coloca o sapato...rs, depois eu vou ver a alma de animais que tiveram sua liberdade tolhida, que são expostos e forçados a humilhação humana, depois eu vou ter uns tabefes bem dados no meu ego, e depois, bem depois...eu vou cuidar de outro probleminha....

Depois desse país, voltamos para o país do inicio da viagem e vamos para as praias mais lindas e fotogênicas do planeta.

Mais uma vez praia é um lugar de desconforto para mim, de expôr não só meus pés, mas minha marcas, minhas estrias, os sinais de que meu corpo foi muito mais forte do que o espanto para cada médico que conto minha história.

Para eles, em seus olhares, eles dizem, nossa isso não é nada, essas marquinhas, esse tico de dedos perdidos, VOCÊ NÃO IMAGINA A GUERRA QUE FOI TRAVADA DENTRO DE VOCÊ, ENTRE SUA CÉLULAS, SEU ÓRGÃOS, SEU SANGUE.

E assim o roteiro foi formado, compactuado e assimilado por mim, pedaço por pedaço.

Dia por dia, situação por situação...não sei, confesso não sei como vou agir, reagir, mas não tenho dúvidas de que será um aprendizado e a chance de exercitar in loco os meus mais terríveis temores. Vai ser a luta interna da minha alma, contra meu ego, quem vencerá, só a viagem poderá nos dizer.

Digo tudo com muita sinceridade, gostaria de escrever aqui, o importante é que estou viva, não ligo para isso, e bla bla bla, mas a verdade é que doí, a vaidade ainda pulsa, a minha personalidade perfeitinha e preocupada com que os outros pensam ainda fazem parte de mim.

Na teoria eu não me importo com o físico, importa quem você é e o que você faz, e eu te digo, eu ando fazendo muito mais coisas boas agora do que antes, de coração, sem pensar, de forma natural, mas se eu disser que "superei" o que me aconteceu, estaria mentindo, aliás, eu acho que superar não existe, existe um viver melhor com as situações adversas.

Sou grata sim por estar viva, mas eu preferia estar viva e perfeita.

Eu entendo o olhar daquele jogador que perdeu a perna no vôo lá da Chacopense, é lógico que ele vai lutar, que vai agradecer estar vivo, mas isso não impedirá que algumas vezes, em algumas situações como caminhar na praia sozinho, a dificuldade de fazer isso com uma perna só, ou com a perna mecânica não façam algumas lágrimas cair...vai ter dia que ele vai tirar de letra as situações mais bizarras que a vida com uma deficiência impôs a ele, mas vai ter dias também, que ele vai chorar de soluçar por não ser nunca mais igual, inteiro.

E não me venha falar que uns são carecas, gordos, magros, que todos temos diferenças, sim, graças a Deus somos diferentes sim, sempre fui, mas isso nunca me machucou, isso nunca doeu tão fundo, por que, eram diferenças físicas, não deficiências e eu posso te dizer que se você não é deficiente você não sabe como é ser um.

Hoje me respeito, se não estou bem, se não me sinto bem, eu digo não. Mas se o ganho de uma viagem, a realização de um sonho é maior que meu desconforto, eu saio da minha zona de conforto e literalmente exponho a parte mais dolorosa de mim. A parte física. Por que, a parte espiritual vai ganhar muito mais do que eu possa imaginar.

Não tenho dúvidas que essa viagem, esse destino, todas as negociações que tive que fazer antes mesmo de decolar, que as emoções fortes que vou viver nesses dois países que visitarei estavam escrito no meu coração, é o que preciso, o que minha alma anseia.
Paris foi para outro lugar da fila. Por que, agora eu preciso testar o que aprendi, e assimilar o que vou aprender mais ainda, vou me expor, vou ser eu mesma de novo, essa nova eu que tanto me orgulha e ao mesmo tempo me entristece.

Então é isso, quando esses posts foram publicados estarei em treinamento, já terei embarcado, para me tornar, tenho certeza, cada vez mais uma versão melhor de mim, numa viagem, para um destino que foi escolhido a dedo pelo universo para mim.

Ou alguém dúvida...???...Continua....

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